6º Edição

Curso de Formação em Yoga

Setembro 2020

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A Natureza fundamental do Eu

revelado através da auto inquirição (Mahavakya Vichara)

Entrando agora concretamente na Mahavakya, literalmente uma grande afirmação, pois ela condensa numa só frase, todo o ensinamento central de Vedanta, que é a natureza fundamental do Eu.


Segundo o Veda, o problema fundamental do ser humano reside na ignorância (Avidya ou Ajnana) e confusão sobre a nossa verdadeira natureza/identidade. E se o problema fundamental é a ignorância, então a solução só pode surgir através do conhecimento (Jnana).


Todo o conhecimento surge na mente e como tal, é fundamental que esta mente esteja preparada para ouvir e assimilar o conhecimento e por isso é prescrito como essencial a dotação da mente de 4 qualificações: Viveka - entre Dharma e Adharma e entre Nitya e Anitya;

Vairagya; desapego em relação aos frutos/resultados das acções;  Samadhi Shatka sampatti  - as seis virtudes da mente; e Mumukshutvam - o desejo por Moksha - Libertação.


O caminho para a aquisição desta qualificações é denominado de Karma Yoga (correspondente à primeira parte do Veda composto de prescrições/rituais etc aplicáveis relevantes para o Karta), que é um estilo de vida que prepara a mente para o caminho de Jnana Yoga. ( parte final do Veda - Veda Anta - Upanishads).


Todas as qualificações acima descritas são fundamentais, mas gostaria de salientar a importância de Shradda, a confiança, a abertura, o benefício da dúvida, nas palavras do Professor que são a expressão do Ensinamento do Veda.


O Veda é encarado na tradição como um Pramana, um meio de conhecimento válido, que no caso concreto é um meio de conhecimento adequado para conhecer a natureza na Consciência, a natureza verdadeira deste Eu.

Todos os outros Pramanas que existem servem para conhecer algo que é externo a mim, que é um objeto que é Anatma, como a mente, os sentidos etc.  Mas o Veda é o único Pramana que versa sobre a natureza fundamental  deste que conhece - o Sujeito.


Nesta medida, este Pramana não pode ser validado ou refutado por nenhum outro Pramana pois o seu espectro é totalmente diferente. da mesma forma que para cores e formas só existe um pramana válido que é a visão.  Por isso é que é um erro tentar validar ou refutar com a mente as afirmações ou os ensinamentos do Veda.


Estes foi um dos pontos mais enfatizados pelo Swami Dayananda nos seus ensinamentos. Tornar mais e mais claro aos seus alunos a importância de olharmos para o Veda como um Pramana, como um meio de conhecimento único sobre a nossa verdadeira identidade, na medida em que serve como um espelho que a reflete.


O Veda é para ser entendido e compreendido e não para ser validado para uma mente finita.


Enquanto a ciência se debruça sobre o mundo material,  Vedanta é o meio de conhecimento que versa sobre a natureza do Observador. a natureza última deste Observador aparece condensada/expressa na forma de Mahavakyas.  Existem várias Mahavakyas ao longo do Veda, principalmente nas Upanishads, mas a mais utilizada para o estudo e que serve de "modelo" para as outras é a afirmação TAT TVAM ASI


A tradução seria Tu és Aquilo, que vem expressar a identidade (Aikyam) entre o Jivatma e Paramatma, revelando ao buscador que na verdade ele não é um ponto insignificante no vasto Universo, mas que é o próprio Universo que é um ponto insignificante em mim mesmo, enquanto Consciência Infinita.


Esta é sem dúvida uma revelação bombástica mas que não é apenas largada pelo Veda, mas vem acompanhada de um método de ensinamento sistemático e constante por forma a conduzir o estudante a esta visão de si mesmo.


A Mahavakya surge assim como uma equação  que se propõe demonstrar a igualdade entre entre 2 factores que aparentam ser diametralmente opostos.

Esses 2 fatores são - Jivatma que corresponde ao indivíduo, o ser humano, que é o efeito; e Paramatma (Iswara) - que é a causa primordial que produz o efeito.


O indivíduo é limitado em conhecimento, em tamanho e em poder e Paramatma é Ominisciente Omnipresente, e Omnipotente!

Mas como pode haver identidade/igualdade entre a causa e o efeito?entre o criador e a criatura? 


Esta equação surge na forma de uma frase (mahavakya) e qualquer frase para ser entendida, temos de conhecer o significado dos seus componentes, as palavras.


Tat - que pode ser traduzido por Aquilo é um pronome que se refere a um nome. Para este ser  ser entendido tem de mergulhar-se no contexto que no caso concreto surge na Chandogya Upanisad onde Udalaka fala sobre Atma/Brahman como a causa da criação, sendo que posteriormente irá concluir que esta não é nada mais que o próprio buscador.


Tvam - que pode ser traduzido por Tu que se refere ao ser humano, mortal, finito, ao Jiva


Asi - identidade entre os 2, unicidade essencial


Mas como podem ser igualados 2 factores totalmente diferentes? A diferença é realmente abismal e notória. O


Até aqui, o Estudante ouve falar de Brahman e de si mesmo até como Consciência, mas quando se chega a este ponto de dizer que nós somos a própria causa da manifestação, todo o estudante vai resistir a esta ideia, pois toda a sua vivência e experiência são no sentido oposto.


A Upanisad não pede para se acreditar em nada, mas convida o buscador a embarcar nesta viagem de autodescoberta.


Um dos exemplos mais esclarecedores e clássicos em Vedanta é o da onda e do Oceano. Também estes aparentam ser diametralmente opostos se atendermos ao significado habitual destes conceitos. A onda é pequena, e o Oceano é vasto, a onda tem uma vida curta e o Oceano perdura, a onda é o efeito e o Oceano é a causa da onda, etc.  Mas estas diferenças são apenas superficiais, pois a verdade de ambos estes factores é que essencialmente eles são água.


Assim sendo, quando me proponho interpretar a Mahavakya, eu devo procurar ter um entendimento correto sobre o verdadeiro sentido da afirmação e para isso devo começar pela compreensão adequada de cada um dos seus componentes, ou seja das palavras envolvidas na mesma. 

Se fizer uso do significado habitual e imediato (Vakshyartha) destas palavras, o resultado não faz qualquer sentido pois como vimos o Jivatma e Paramatma são totalmente distintos. Mas se tenho confiança nas palavras do  Veda e acredito na sua validade enquanto Pranama, tenho de procurar um outro sentido para estas mesmas palavras.


Então, a tradição apresenta um método de interpretação que usamos comumente na nossa linguagem e que serve para interpretar a Mahavakya. Este método consiste numa interpretação dos conceitos em que deixamos cair uma uma parte do significado imediato e não deixamos cair outra parte do significado imediato, para chegarmos ao significado implícito. Deste modo e uma vez que este método é usado numa equação, o que queremos fazer é retirar as partes contraditórias de ambos os factores e não retirar o "aspecto" comum entre eles.


No exemplo da onda e do oceano, nós retiramos o nome e a forma de que correspondem aos seus aspectos periféricos e o que permanece é a verdade essencial de ambos que é a água.


Então do mesmo modo, na Mahavakya Tat Tvam Asi, com o intuito de reconhecer a igualdade de ambos os lados da equação, Jivatama e Paramatma (Isvara), encontrando o verdadeiro sentido da afirmação, eu tenho como que largar (mentalmente), abrir mão da parte não essencial do indíviduo que corresponde ao corpo  denso, subtil e causal ( sharira tryam ou os Pancha Koshas) e também a parte não essencial de Iswara que corresponde a Maya, mas mantenho a verdade essencial de ambos que é a mesma - Caitanya - a Consciência Una e Indivisível que é Atma/Brahman. então tenho Jiva Isvara Aykyam através do método Jahati Ajahati Lakshana ou Bhaga Tyaga Lakshana para chegar ao significado implícito (Lakshyartha).


E assim o Veda e o Guru apontam e demonstram ao buscador a verdade essencial,  o princípio da Consciência que deve ser visto e reconhecido como a sua própria natureza - Aham Brahma Asmi.


No entanto para que esta visão se possa estabelecer definitivamente até que não restem dúvidas, a tradição aconselha Sravanam, a escuta consistente e sistemática do ensinamento, Mananam, o processo de remoção das dúvidas e das aparentes contradições que o buscador encontra entre o ensinamento e a sua experiÊncia/vivência e finalmente Nididhyasana que surge principalmente para uma fase em que não restando já dúvidas sobre a verdade do ensinamento, o estudante procura estabelecer-se definitivamente na verdade de si mesmo, libertando-se dos padrões habituais enraizados através da contemplação no ensinamento da mahavakya.


Importa salientar que o que impede ou dificulta a assimilação do ensinamento, é o facto de o ponto de vista do buscador estar centrado no meio de expressão da consciência (upadhi) onde residem todas as características e todas as diferenças. O buscador tem ainda uma visão particular e limitada de  si mesmo pois toma-se por um indivíduo com todas as características associadas, deixando de ver que a sua verdade é Nitya Shuda.


Este erro acontece devido à proximidade entre o upadhi e o Vastu como  no exemplo do Spatika Lingam em que as característica da cor do upadhi flor vermelha é tomada como característica do Vastu Lingam de cristal, Do mesmo modo, as características do corpo, da mente dos sentidos etc são tomadas como características do Eu. Mas da mesma forma que o lingam não pode ser manchado ou alterado pela flor vermelha, também o Eu não pode ser tocado, alterado pela nenhuma das características dos diferentes upadhis (mithya tvam) pois ele é Asanga, livre de associação. 


Este exemplo é particularmente interessante, pois ele não nega a experiência! Eu continuo a ter a experiência do cristal vermelho do mesmo modo que eu continua a ter a experiência de um corpo e de uma mente e das suas características, mesmo depois do conhecimento. Mas a diferença é que o ajnani funda o seu conhecimento a sua realidade na experiência enquanto o Jnani se encontra estabelecido na sua naturez, na verdadeira realidade, apesar das experiências, pois ela já não se confunde com elas.


Este "estado" é denominado de Moksha, que na verdade não é algo a ser atingido nem sequer por Jnana. Pois nem Jnana pode trazer aquilo que já cá está! Moksha é a libertação das amarras ilusórios da limitação, que passam a ser vistas como inexistentes. Moksha foi, é e será a verdadeira realidade do indivíduo, pois só existe uma Consciência que é todo o conhecimento, Sarva Jnanam e que tudo permeia Sarva Vyapti.


Shivoham! Shivoham! Shivoham! 



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